Silvio Tendler, conhecido como o “cineasta da memória”, dedicou sua vida a registrar os grandes personagens da história brasileira e as utopias de seu tempo. Com uma filmografia que atravessa gerações, transformou o documentário em instrumento de reflexão e resistência.
Ele faleceu na manhã de 5 de setembro de 2025, aos 75 anos, vítima de uma infecção generalizada. Ao longo de mais de quatro décadas, construiu uma obra monumental que narra a trajetória do Brasil a partir de seus líderes, de suas contradições políticas e de seus movimentos sociais.
Entre os documentaristas mais importantes do país, Tendler registrou a trajetória de presidentes como Juscelino Kubitschek, João Goulart e Tancredo Neves; intelectuais como Milton Santos, Josué de Castro e Ferreira Gullar; além de artistas, movimentos populares e conflitos ambientais. Seus filmes tiveram alcance popular raríssimo no gênero: Jango (1984) ultrapassou 1 milhão de espectadores e Os Anos JK (1980) levou 800 mil pessoas aos cinemas.

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O cineasta seria o grande homenageado do Planeta.doc em 2025, ocasião na qual abriria o Festival e participaria da Conferência, contribuindo para o debate sobre o papel do cinema como instrumento de reflexão e transformação social.
Juventude sob ditadura
Nascido no Rio de Janeiro em 12 de março de 1950, Tendler viveu a juventude sob o impacto do golpe de 1964. Aos 18 anos, com o endurecimento do regime militar após o AI-5, mergulhou em cineclubes, no Teatro Opinião e no contato com artistas e intelectuais que resistiam à repressão.
Em entrevista, recordou: “Eu começo a ficar adulto no golpe de 64. Junto com a repressão, nasce a resistência.” Inspirado pelo Cinema Novo de Glauber Rocha, pela Nouvelle Vague francesa e pelo neorrealismo italiano, iniciou seus primeiros curtas ainda nos anos 1970, entre eles Fragmentos de Vida e João Cândido, um Almirante Negro.
Consagração e enfrentamento à censura
Nos anos 1980, Tendler alcançou projeção nacional com filmes que desafiavam a censura. Os Anos JK – Uma trajetória política (1980) foi pioneiro ao revisitar a era Juscelino em plena ditadura, mesmo sob pressões para que o tema não fosse levado às telas.

Poucos anos depois, lançou Jango (1984), sobre o presidente João Goulart, deposto em 1964. O filme enfrentou dificuldades com a censura, mas se tornou um dos documentários mais assistidos da história do Brasil. Em seguida, Tancredo, a Travessia (2011) e Marighella (2001) reafirmaram sua vocação de registrar personalidades que marcaram a política brasileira.

“Era difícil, mas tinha que fazer. Você não faz as coisas porque são fáceis, você faz as coisas porque são importantes”, declarou Tendler sobre sua trajetória.
Assista ao trecho da entrevista no vídeo “Canal Memória: O documentário político de Silvio Tendler”, disponível no Youtube:
Intelectuais, artistas e utopias
Além dos líderes políticos, Tendler dedicou parte essencial de sua filmografia a pensadores e artistas. Retratou o geógrafo Milton Santos em Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global visto do lado de cá (2006), o poeta Ferreira Gullar em Arqueologia do Poeta (2018) e o médico Josué de Castro em Cidadão do Mundo (1994). Também dirigiu obras sobre Castro Alves, Glauber Rocha, J. Carlos e Haroldo Costa, revelando sua atenção à cultura e à memória intelectual brasileira.

Seu cinema também dialogou com o mundo: em Santiago das Américas (2019), homenageou o cineasta cubano Santiago Álvarez, e em Giap – Memórias Centenárias de Resistência (2011), entrevistou o lendário general vietnamita Vo Nguyen Giap.
Temas sociais e ambientais
Silvio Tendler foi também um documentarista comprometido com as lutas sociais e ambientais. Dirigiu filmes que denunciaram desigualdades e modelos predatórios, como Dedo na Ferida (2017), sobre o poder do capital financeiro, e O Veneno Está na Mesa I e II (2011, 2014), sobre os impactos do uso de agrotóxicos na saúde e no meio ambiente.
Em Fio da Meada (2019), conectou crise ecológica, desigualdade social e saberes ancestrais, propondo um futuro baseado na justiça ambiental. A “Trilogia da Terra” — formada por O Veneno Está na Mesa e Agricultura Tamanho Família (2014) — reforçou a defesa de um modelo de desenvolvimento sustentável e solidário.
Filosofia e legado
Ao longo de sua carreira, Tendler sempre destacou a dimensão autoral do documentário: “O documentário é a verdade do autor, as obras representam o meu olhar.”

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Para ele, o cinema era mais do que registro: era resistência, memória e laboratório de ideias para a transformação social. Sua presença no Planetadoc Conferência 2025 simbolizaria esse legado, ao refletir sobre o cinema como espaço de redes culturais e de inspiração coletiva. A ausência física deixa uma lacuna, mas sua obra segue iluminando o caminho de cineastas e pensadores comprometidos com a vida e a justiça.
“O que vai ficar para a história são os filmes que produzimos”, afirmou em uma de suas últimas entrevistas.
Um tributo

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Silvio Tendler deixa mais de 80 produções entre longas, médias, curtas e séries, exibidas em festivais no Brasil e no exterior, premiadas pelo público e pela crítica. Sua obra, marcada pelo olhar poético e pela coragem política, permanece como referência para gerações de cineastas, pesquisadores e espectadores.


